Salvador
vive um surto de primeiro-mundismo. As calçadas da primeira capital do país vêm
sendo “requalificadas”, com intervenções voltadas para os deficientes físicos,
notadamente, visuais. Entretanto, as pedras portuguesas, registro da nossa
herança lusa, cedem lugar ao cimento, símbolo da estética árida e de gosto
duvidoso das cidades interioranas, a exemplo de Feira. Será que não dava para escrever
uma nova história sem apagar a passada? Será que não dava para pensar um novo
conceito de cidade sem maquiá-lo com um padrão Fifa, bobo e alienígena?
Em
Lisboa, no Parque das Nações, logradouro revitalizado para sediar a Expo 98,
assim como em outros tantos pontos dessa encantadora urbe (preterida por muitos
turistas brasileiros, frise-se de passagem), o antigo e novo convivem
harmoniosamente. O que prova que é possível, sim, de um lado, desenvolver um
projeto de urbanização inteligente, prático e moderno, o qual atenda aos
anseios da população, e, de outro, evitar a interferência nas marcas deixadas
por administrações anteriores, em especial, no caso lusitano, a que deu início,
em meados do século XIX, à técnica de calcetamento chamada, na altura, de “calçada
à portuguesa” e que viria a ser aprimorada e exportada com sucesso para o
estrangeiro.
Para
além de Lisboa, outras capitais europeias replicam essa forma de rediscutir o
espaço urbano e brecam, com isso, como bem notou Caetano, a força da grana “que
ergue e destrói coisas belas”. Por que, então, em Salvador, museu a céu aberto
da história arquitetônica brasileira, importaríamos um modelo made in China sem
antes o adequarmos à realidade local, desrespeitando, assim, o legado de nossos
hermanos de além-mar? De nada adianta, afinal de contas, perseguir um ideal de
fora, se, aqui dentro, a mentalidade que prevalece é a provinciana. Em suma,
antes de transformar a cidade num canteiro de obras, é preciso requalificar, em
primeiro lugar, o modo como pensamos.
A TARDE, segunda-feira 08/06/2015
Gabriel de Senna Pondé
Professor e Mestre em Jornalismo, Política e História Contemporânea/Univ.Lusófona de Humanidades e Tecnologias
Muito obrigado por compartilhar o meu texto, Dimitri! Voltarei mais vezes ao seu blog. Grande abraço!
ResponderExcluirGabriel Pondé