quarta-feira, 29 de setembro de 2010

RETALHOS 22

Á socióloga Maria Brandão, de famosa família de intelectuais baianos, se queixando da absoluta falta de crítica no Brasil, dedico estes Retalhos.

Desde que comecei a documentar todas as fachadas azulejadas que encontro pelo caminho entrei em depressão. Não é possível que os órgãos costumeiros, Iphan, Ipac etc. não caiam na real: praticamente todas estas fachadas estão desaparecendo. O caso mais trágico encontra-se a poucos metros do quartel dos bombeiros da Baixa dos Sapateiros. Conheci este casarão do século XIX inteiro, ocupado por famílias de baixa renda, mas com vida. Uma bela noite, por excesso de chuva, o imóvel caiu, mantendo-se, por milagre, a bela fachada, com suas sacadas de ferro trabalhado e seus azulejos. Os anos passam, com esta postura alienada de ninguém dos responsáveis querer saber de velharias.  Aliás, nem de segurança, porque apesar das bengalas de ferro, é evidente que, mais dia, menos dia, vai cair e poderá matar mais alguns. Como denuncia a foto, as sacadas de ferro foram roubadas e a maioria dos azulejos arrancada. Depois governo e prefeitura fazem uma propaganda insensata falando da cultura baiana!
Vale a pena clicar para ampliar a foto e constatar o estrago 

Casamento chique no luxuoso e cafona Hotel do Convento do Carmo. Veio gente do Sul-Maravilha. Gente finíssima, bem “Cheguei!”. Para eles todos os apartamentos foram reservados. O pacote fechado custou R$40 mil para uma noite, breakfast incluído. Casal finíssimo telefona a finíssimos amigos baianos “Venham! O hotel é de graça... Sim ainda tem quarto... Olhe, é agora ou nunca!” Não conhecer os noivos é a última preocupação desta finíssima gente. O importante é aproveitar a boca livre. Depois a gente comum, como você e eu, vai estranhar a pouca vergonha de Brasília...

Sabem qual a peça há mais tempo em cartaz no mundo? É “A ratoeira” de Agatha Christie, no teatro Saint Martin, centro de Londres. Desde 1952 até hoje!

Documento assinado por Hélio Bicudo, Carlos Velloso, Leôncio Martins Rodrigues, José Arthur Gianotti, José Álvaro Moisés, Lourdes Sola, Ferreira Gullar, d. Paulo Evaristo Arns, Marco Antonio Villa, Bóris Fausto, Celso Lafer, Carlos Vereza, Mauro Mendonça, Rosamaria Murtinho entre outros.

"Em uma democracia, nenhum dos Poderes é soberano. Soberana é a Constituição, pois é ela quem dá corpo e alma à soberania do povo. Acima dos políticos estão as instituições, pilares do regime democrático. Hoje, no Brasil, os inconformados com a democracia representativa se organizam no governo para solapar o regime democrático.

É intolerável assistir ao uso de órgãos do Estado como extensão de um partido político, máquina de violação de sigilos e de agressão a direitos individuais.

É inaceitável que a militância partidária tenha convertido os órgãos da administração direta, empresas estatais e fundos de pensão em centros de produção de dossiês contra adversários políticos.

É lamentável que o Presidente esconda no governo que vemos o governo que não vemos, no qual as relações de compadrio e da fisiologia, quando não escandalosamente familiares, arbitram os altos interesses do país, negando-se a qualquer controle.

É inconcebível que uma das mais importantes democracias do mundo seja assombrada por uma forma de autoritarismo hipócrita, que, na certeza da impunidade, já não se preocupa mais nem mesmo em fingir honestidade.

É constrangedor que o Presidente da República não entenda que o seu cargo deve ser exercido em sua plenitude nas vinte e quatro horas do dia. Não há "depois do expediente" para um Chefe de Estado. É constrangedor também que ele não tenha a compostura de separar o homem de Estado do homem de partido, pondo-se a aviltar os seus adversários políticos com linguagem inaceitável, incompatível com o decoro do cargo, numa manifestação escancarada de abuso de poder político e de uso da máquina oficial em favor de uma candidatura. Ele não vê no "outro" um adversário que deve ser vencido segundo regras da Democracia , mas um inimigo que tem de ser eliminado.

É aviltante que o governo estimule e financie a ação de grupos que pedem abertamente restrições à liberdade de imprensa, propondo mecanismos autoritários de submissão de jornalistas e empresas de comunicação às determinações de um partido político e de seus interesses.

É repugnante que essa mesma máquina oficial de publicidade tenha sido mobilizada para reescrever a História, procurando desmerecer o trabalho de brasileiros e brasileiras que construíram as bases da estabilidade econômica e política, com o fim da inflação, a democratização do crédito, a expansão da telefonia e outras transformações que tantos benefícios trouxeram ao nosso povo.
É um insulto à República que o Poder Legislativo seja tratado como mera extensão do Executivo, explicitando o intento de encabrestar o Senado. É um escárnio que o mesmo Presidente lamente publicamente o fato de ter de se submeter às decisões do Poder Judiciário.

Cumpre-nos, pois, combater essa visão regressiva do processo político, que supõe que o poder conquistado nas urnas ou a popularidade de um líder lhe conferem licença para rasgar a Constituição e as leis. Propomos uma firme mobilização em favor de sua preservação, repudiando a ação daqueles que hoje usam de subterfúgios para solapá-las. É preciso brecar essa marcha para o autoritarismo.
Brasileiros erguem sua voz em defesa da Constituição, das instituições e da legalidade.

Não precisamos de soberanos com pretensões paternas, mas de democratas convictos."

A historiadora Moema Parente Augel acaba de lançar em Ilhéus Mato Atlântico, relato parcial do arquiduque Maximiliano de Habsburgo no sul da Bahia. Aguardamos o lançamento em Salvador.

Será que estamos bem certos do caminho que o país tomou combinando o mal passado desenvolvimentismo e o unindo a políticas de estabilidade macroeconômicas? Não basta a crise do American way of life para nos alertar? Até quanto tempo durará uma sociedade escorada no cartão de crédito, depredando nossas cidades e recursos naturais num consumo irresponsável? Até quando bloquearemos o movimento ficha limpa e faremos com que o crime seja sinônimo de audiência?” Franklin de Carvalho Oliveira Júnior.

Por duas vezes na mesma semana, ouvi entrevistados na televisão louvar a mítica Escola de Sagres que antecedeu as grandes descobertas portuguesas. Na mesma semana, um historiador português, cujo nome não consegui gravar, afirmou redondamente que a dita Escola  de Sagres nunca existiu.

Israel recomeça a construir colônias judaicas em terras palestinas, “discretamente” como recomendou o reacionário primeiro-ministro Netanyahu. Cujo filho, aliás, está envolvido financeiramente, dizem, na construção do famigerado muro que abocanhou as melhores partes da terra, incluindo as nascentes de água, e não hesitou a cortar povoados pelo meio. A oposição israelita européia, israelense e americana, finalmente começa a botar a boca no trombone. Fretou o grande veleiro Irene, carregado de brinquedos, livros, material de pesca e remédios para os palestinos oprimidos. Resta a pergunta: já que os israelenses continuam invadindo, massacrando, desprezando os direitos dos palestinos a um pedaço de terra, que tal eles, os judeus, adotarem a solução final?

Enquanto isso, os extremistas árabes recusam reconhecer o estado de Israel ...

sábado, 25 de setembro de 2010

RETALHOS 21


Anônimos
Desde que inaugurei este blog, impressionam os leitores desabafando mesquinhez na secção “Comentários”. Nunca assinando com o próprio nome, evidente... Anonimato é primordial. Mas é bom ficar sempre com o desconfiómetro ligado. Entre outros, meu velho amigo Jacques de Beauvoir, desmentiu qualquer retaliação por publicar no seu blog alguns escritos meus, corrosivos como quase sempre. Aliás, você queria o quê? Que escrevesse sobre o lindo pôr-de-sol no farol, quanto é gostosa a canja de galinha que tomei na casa de Dona Biju ou que recitasse uma ladainha? Me poupe, viu?!

Freqüenta?
Já tivemos na Bahia a estrela cadente de Daniel Dantas. Agora é a vez de Nelson Tanure. Tudo gente muito fina “que freqüenta” e manda fazer suas camisas sob medida.

Ego
O próximo programa de TV apresentado pela falsa loira Lilian Reis já tem nome: “Eu +eu”. Sua ambição? Tomar o lugar da Ana-Maria Brega, como a Galisteu sonha ser uma nova Hebe Camargo. Ambas precisando encomendar carisma ao Papai Noel.

Medo
Estou numa situação muito inquietante. Depois de ler as duas páginas do jornal A Tarde denunciando as ligações perigosas entre o superintendente do Iphan, Carlos Amorim (leitor deste blog) e o Paulo Damasceno, de repente me vejo na iminência de ser preso por cumplicidade, já que, por indicação do super, vendi, há aproximados dois meses, um filhote de buldogue francês ao secretário municipal de Planejamento. E vocês sabem muito bem que quem paga o pato é sempre o elo mais fraco, a secretária, o jardineiro ou o vendedor de cachorros, sejam eles quentes ou não. Mas, mesmo sob tortura, nunca direi quanto recebi! Botei na conta de uma laranja-lima. Devolver a grana, jamais. Já gastei.
  Melba de Saint Antoine, aos dois meses, envolvida no escándalo!


PT já era!
Há muito tempo que o Partido dos Trabalhadores deixou de ser de esquerda, apesar das olhadas para os lados do Hugo e do Fidel. A única janela por onde entra um ar puro é o PSOL. As declarações do Marcos Mendes me deixaram aliviado: Ainda tem vida inteligente possível nas cavernas da política. Talvez porque ainda não tenha chegado lá. Basta de raposas velhas. Nunca tive a mínima simpatia pelo PFL nem pelo agonizante Dem. Mas a oposição é a essência de qualquer democracia que não seja venezuelana. Todos os países desenvolvidos ostentam uma oposição forte e articulada. E total liberdade de expressão. São fatos que convêm não esquecer e lutar por estes princípios, qualquer que seja a ideologia. E mais: democracia não existe com voto obrigatório. O dia que o voto for facultativo será um desastre para os armengueiros de plantão.

Novos tempos
O boxeador Popopopô para deputado federal? Por que não? E o craque Kakakakakaká para presidente da república, já! Pelo menos teremos força, beleza e juventude. E a burrice também, como oferta exclusiva das Casas Brasilienses. Chega de vozes embargadas pela cachaça e primeiras damas tão cheias de botox que nem conseguem abrir a boca. Ou você prefere olhar para o Paulo Maluflufluf - este cara não desgruda mesmo - arrotando ousadia no seu rosto por mais alguns vinte anos?

Ridículo!
Constrangedora, esta promessa de Serra levar o salário mínimo para R$600 reais e, agora, dar 13° para o bolsa família se for eleito. Parece estar comprando votos. Já que está perdendo, que, pelo menos, seja com classe. Totalmente desacreditado.   

Saúde municipal
Os funcionários do posto de saúde do Santo Antônio afirmam que atendem pacientes de hepatites virais, tuberculose, hiperdia, trabalham com puericultura, planejamento familiar, pré-natal e mais, muito mais problemas. Só que quem for lá para um simples curativo encontra as salas vazias na maior parte do dia e os oito funcionários sentados esperando o trem passar. A sala de odontologia, com material novo, não pode atender pelas mesmas razões que o curativo não será feito, obrigando o paciente a andar até o Barbalho.  Falta a autoclave, instrumento indispensável para esterilização dos instrumentos. E mesmo se tiver, não poderá ser utilizada porque a rede elétrica não agüenta a carga. Este estado de carência existe e persiste há mais de quatro anos! O secretário municipal de Saúde foi solicitado por várias vezes e não dá a honra de uma solução. O contribuinte que se f ...dane. Nem o ex-ministro e ex-futuro governador Geddel Vieira Lima conseguiu sensibilizar o doutô. Mesmo que assistam a Copa do Mundo sentadinhos lado a lado.

Sankai Juku
Meu primeiro contato foi em Paris, no princípio dos anos 90. Nu, a não ser um minúsculo tapa-sexo, coberto de cinzas, da mesma exata cor do asfalto, um homem forte e careca, deitado, se arrastava no passeio da esquina do Café “Les deux magots” em pleno coração de Saint-Germain. O estranho movimento ondulatório do corpo lembrava ondas marítimas. Não me lembro de tê-lo visto se levantar nem para sentar. O espetáculo me perturbou muito. Nunca ouvira falar em butô, mas as imagens ficaram gravadas na memória.
Vários anos passaram até o Sankai Juku aparecer no palco do TCA, ainda na gestão do Teodomiro Queiroz. Quem assistiu não pode ter esquecido o espelho d´água e os figurinos brancos molhados, colados ao corpo dos dançarinos.
Quando soube que o grupo voltava a Salvador, correndo o risco de me tornar pesado, pedi insistentemente a administração do teatro para me reservar, com exagerada antecedência, dois bons lugares.
O jornal A Tarde publicou uma página inteira no mesmo dia. Avisei repetidamente meus leitores para não perder o espetáculo. Mas qual a minha surpresa, entrando no recinto, ao constatar que um bom terço das poltronas permaneceria vazio! Se a classe A baiana nunca brilhou pela sua cultura, devemos admitir que a média tem pouca curiosidade além do Bolshoi e Gilberto Gil. Precisam saber o que vai ser servido, como se fosse uma moqueca.
Para ser honesto, talvez por não mais existir o impacto da descoberta, esta nova apresentação me deixou menos empolgado, notando certa redundância na segunda parte. Colocada esta ressalva, foi um momento de rara intensidade.


por razao desconhecida, nao consigo anexar o youtube do balé


Da mesma forma que o silêncio também é música, a imobilidade pode ser dança. Despojamento, economia de gestos até chegar ao mais puro minimalismo, o butô, que nasceu no Japão pouco após a segunda guerra mundial, seria a dança da escuridão. Cobertos por inteiro de pó de arroz, oito homens, cabeça e corpo raspados, parecem não conseguir se arrancar do chão. Afirma seu fundador que o conceito repousa sobre o princípio da gravidade. Ela é sempre presente como um ímã prendendo o homem à terra. Raramente os dançarinos serão vistos eretos e leves ou pulando como na tradicional dança acadêmica européia cujo princípio e justamente a negação do peso. De Nijinsky à mais nova bailarina de Deborah Colker, a força contribui para abolir a gravidade. No butô, qualquer gesto das mãos, dos pés ou da boca reveste a solenidade de um ato ritual. Tanto o disco colocado tal uma ilha no meio do palco como a constelação do pano de fundo, são elementos que situam no tempo e no espaço a seqüência da coreografia. A iluminação – excelente, quem não notou a luz azulada caindo do céu? - imprime um ritmo definido ao espetáculo. A música nunca se impõe, servindo de suporte, ao contrário de muitas coreografias ocidentais que parecem meras ilustrações da obra musical. Enfim, resta falar dos surpreendentes figurinos cuja autoria não é mencionada no programa, mas deve ser, como da primeira vez, do genial costureiro Issey Miyake*. Quem perdeu a apresentação do Sankai Juku perdeu a oportunidade de modular sua sensibilidade para outras culturas.

*Sugiro abrir o Google para ver o trabalho deste artista. São verdadeiras esculturas

Última hora.
Autor de cinco títulos publicados, o antropólogo Vivaldo Costa Lima faleceu esta semana aos 85 anos. Como diretor geral do IPAC, foi responsável pelas mudanças sociais do Pelourinho, debaixo das orientações do então governador Antônio Carlos Magalhães.
                                                                                                   Salvador, 24 de setembro de 2010

terça-feira, 21 de setembro de 2010

UM ÔNIBUS DIFERENTE

Três semanas na Síria (V)
As sociedades ocidentais economicamente desenvolvidas, oferecem pouca originalidade no uso dos veículos motorizados. O único sonho do feliz dono do carro ou da moto é comprar um modelo mais recente. Já, quando você viaja em países mais arcaicos, ser-lhe-á fácil constatar a relação afetiva entre o homem e seu engenho. Quem for a Guatemala ou Tailândia, voltará com cem fotos de bicicletas ou ônibus carinhosamente enfeitados. Entre as mil surpresas destas semanas na Síria, um dos momentos mais emocionantes foi com certeza o encontro deste sorridente motorista que obviamente, vive no seu pequeno ônibus, disponível para qualquer deslocamento e transporte.

Fiquei logo encantado com a estética exterior. Mas, de entrada, o aspecto do homem requeria certo cuidado. Ao pedir licença para fotografar, um enorme sorriso apareceu debaixo de seu bigode e ele insistiu para eu entrar e tomar fotos detalhadas. Veja o que encontrei!    


                                         
    


Logo acima da cabeça do motorista, guirlandas, pompons, corações e cachos de uvas. Na sua frente, bem ao lado do volante, estante com tampo de vidro ostenta um alcorão aberto e duas pequenas jarras, que deverão, em breve, receber suas lindas flores de plástico. Note como tudo está arrumado e limpo.



Pode constatar que as vindimas serão fartas, já que as uvas chegam a obstruir a vista da rua. E ninguém imagine que algum código de trânsito existe. Ou, se existir,  ninguém o respeita. Logo debaixo do assento, um botijão de gás, muito prático para cozinhar em qualquer lugar do planeta e, como higiene é fundamental, ao lado da porta, tem  pia e água corrente. Alguém precisa de casa com um conforto desses?

No final da visita, o motorista me informou que seu lugar de descanso é no fundo. Uma verdadeira cama. Talvez seja uma sugestão para quem quiser viajar por aquelas bandas com todas as mordomias...

Salvador 21 de setembro de 2010
 



segunda-feira, 20 de setembro de 2010

RETALHOS 20

Para substituir a estrela que ainda, por enquanto, preside os destinos da Secretaria Estadual de Cultura, acabam de me sugerir o nome de Paulo Alcoforado, baiano morando no Rio e diretor da Ancine, muito próximo de Orlando Sena. Já que o marasmo reina absoluto nas outras áreas, vamos pelo menos dar uma força ao cinema baiano?

Cuba. É quando a esclerose começa a produzir seus deslizamentos que Fidel Castro finalmente descobre a pedra filosofal. Admite que teve atitudes negativas – e como as teve! - e que o modelo socialista está ultrapassado. Quem diria?  Só agora? Foi exatamente minha conclusão após passar duas semanas na Havana, em 1999. Será que o Fidel leu minhas crônicas publicadas na Gazeta Mercantil e colocou a cabeça nos ombros? Brincadeiras à parte, não há ninguém que por aquelas bandas passeasse por duas horas sem chegar à mesma conclusão. Mesmo para tomar um cafezinho no balcão foi para mim um problema, até com medo da polícia. Outro dia eu conto.

De Samuel Celestino: “Foi-se o tempo em que Lula falava em 300 picaretas freqüentando a Câmara dos Deputados. Dos remanescentes deles, boa parte está com Lula e à sombra do PT, no partido ou no arco de legendas aliadas. Onde a sombra é farta, segura e gera fartos dividendos”. Alguém para desmentir esta afirmação?

Autoritarismo. De repente meu crédito no Skype desapareceu com minha lista de contatos. Tentar reaver, quem se habilita?  O jeito foi recomeçar de zero. Só que agora o leão meteu a pata e até nas ondas sonoras exige seus 30%. Deve haver uma pressãozinha das telecomunicações... Ou você imagina que a Oi, a GVT, Claro e outras incomodadas iriam perder alguns bilhões e ficar quietas?

Troca-troca. Recebi de um leitor este tesouro de lógica: “Se eu fosse o Serra tornaria pública a declaração do imposto de renda da filha, desde é claro, que ela permitisse. E pediria que o Lula fizesse o mesmo em relação ao filho dele.” Genial, né?

Chega! Cada dia, abro meu jornal para ser assaltado por mais uma sem-vergonhice envolvendo a prefeitura, o prefeito e seus colaboradores e ex-colaboradores. Não há absolutamente um pedacinho, por modesto que seja, que não esteja contaminado pela corrupção ou incompetência da atual administração.  Vamos encarar o problema de frente: Não chegou o momento de pedir, com todo respeito, para o João Henrique Carneiro se afastar do poder? Afinal quem o elegeu também pode destituí-lo, não é lógico? Se for necessário até por plebiscito. Mas como está é que não pode continuar.

Novos Tempos. O belíssimo convento de São Francisco, em Olinda, vai ser transformado em pousada pela cadeia portuguesa Pestana. Esperamos que, desta vez, tenham mais gosto que no cafonérrimo Convento do Carmo em Salvador.

E por falar no Pestana-Carmo: A administração deveria formar porteiros para não atrapalhar quem deseja entrar e visitar os espaços públicos. Até quem deseja tomar bebida no bar é barrado sob alegação de que “estão preparando um evento”. É mais fácil entrar no Ritz em Paris, no Pierre em NY ou no Copacabana no Rio. Foi assim que um jornalista francês que acabava de entrevistar com exclusividade o Lula em Brasília não conseguiu entrar, nem quatro sofisticadas senhoras cariocas residentes em NY.  

   Angu. A nacionalmente reputada sorveteria Laporte, junto à Igreja de São Francisco, centro histórico de Salvador, fechou para obras. O Ipac considera que o imóvel precisa de reforma em caráter de urgência-urgentíssima. Para tanto o governo pagará, com o dinheiro do contribuinte, a bela quantia de R$570 mil para a construtora. Sem licitação. É bom notar que o imóvel é de parentes de uma funcionária do Ipac. Curiosa coincidência, vocês não acham?

Dicotomia. Algo me incomoda demais. Por um lado, a maioria absoluta do povo clamando a supremacia, idoneidade, hegemonia e adequação do Lula da Silva. Por outro lado a maioria dos intelectuais, artistas e comentários políticos - de Ferreira Gullar e Arnaldo Jabor a João Ubaldo Ribeiro - preocupados pelo trator paternalista assentado no que a política brasileira tem de mais prepotente e corrupto. Será que só leio a imprensa tendenciosa e tenho os amigos errados? Depois, lembrando de momentos da política nacional, como, por exemplo, o plebiscito sobre armamento, penso que a minoria pode estar certa. Ou somos assim tão absurdamente elitistas?

Referências? Numa reunião de arquitetos, foi mencionada a pesquisa do Escritório de Referências para uma proposta de centro de convenções no centro histórico de Salvador. Mais uma coincidência: eu assinei uma matéria no boletim “Era o que faltava” ainda em 2009 e tornei a abordar o assunto na minha coluna quinzenal do jornal A Tarde, bem antes da publicação do tijolo sobre o “Centro Antigo de Salvador”. Da mesma forma escrevi, anos atrás, no “Jornal do Boqueirão” um artigo que serviu de trampolim para o centro de capoeira no forte de Santo Antônio e criei o concurso de decoração de fachadas para o desfile do 2 de julho e o enfeite das ruas.  Não sou imperador romano, mas devolvam a Cesar o que é de Cesar. Tenho outras sugestões práticas e baratas para viabilizar esta parte da cidade.

Socorro! Já vai para a terceira semana a interdição dos veículos – carros, caminhões e ônibus - da rua dos Adobes no bairro de Santo Antônio. Tudo por causa de uma casa do século XIX – número 33 - com linda fachada de azulejos ameaçando ruir. Dois barrotes tentavam conter a queda, mas foram roubados. A Codesal com a palavra.

Azulejos. Estou começando a fazer o inventário iconográfico das antigas fachadas de azulejos de Salvador. Equivale a fotografar um cemitério. Deprimente.

Um boato alarmista sobre um eventual fechamento da Casa do Benin. Não é exatamente a proposta. A prefeitura, depois de abocanhar parte do Museu da Cidade, dentro de sua filosofia de preservar nossa história e cultura, pretende mudar para o belo casarão de oitão a sucursal da Guarda Municipal. Assim estará muito bem guardada, provando quanto nosso dinâmico Dom João Henrique I° (e único) se preocupa com a cultura baiana. Ninguém entende porque a prefeitura não restaura um dos tantos casarões entre a Praça da Sé e a Barroquinha para servir de quartel. Cada vez mais evidente a desconfiança de certos políticos a respeito da Cultura. A Cultura forma cidadãos, aprofunda o pensamento e alimenta a análise crítica. Lá, Senhores, reside o perigo: Pensar e contestar! Muitos são os políticos e religiosos que temem um povo que raciocina e abre os olhos.

Cinema. Pela segunda vez este ano, assisti a um excelente filme turco. O primeiro foi no VI Seminário de Cinema, no TCA. Agora é no Glauber Rocha que está passando “Doce olhar”, por coincidência nas mesmas paisagens montanhosas e florestais. Vale a pena conferir

Não cheira a queimado? O escritor de livros infantis Yves Hublet, com dupla nacionalidade belga e brasileira, foi o autor das bengaladas no então ministro José Dirceu, em plena Câmara dos Deputados, na véspera de cassação por envolvimento no mensalão do PT. O escritor foi morar na sua propriedade na Bélgica até retornar ao Brasil para tratar de assuntos relativos a um novo casamento. Preso na saída do aeroporto, acabou morrendo na prisão “vítima de câncer”. Seu corpo foi imediatamente cremado. Isto é sem qualquer autopsia ou autorização de qualquer membro da família. E o Celso Daniel, quem se lembra?


Olhe bem para esta foto. É uma vista parcial da baía de Cascais, perto de Lisboa.
A presença deste pesado edifício, o Hotel Estoril-Sol, construído nos anos 50 não lhe incomoda? Pois tanto incomodou os portugueses durante meio-século que finalmente optaram pela solução mais pragmática: foi implodido, deixando o espaço para outro estabelecimento hoteleiro, mais em harmonia com a paisagem e que não aniquila a vista das casas em segundo plano. Que tal sugerir ao prefeito o mesmo para nossa orla?

        Salvador, 20 de setembro de 2010

domingo, 19 de setembro de 2010

Paris des chansons tristes

Les amours malheureuses finissent dans la lumière avare du petit matin. Cheveu collé, chair froissée, bouche pâteuse, elle somnole, pendant que l´homme enfile son pantalon, allume une cigarette, tire la chasse d´eau et ferme la porte pour la dernière fois. Sans un mot, sans un regard. Marin ou légionnaire? Le clairon sonne á la caserne voisine. On dit toujours, on dit jamais... C´est une chambre mansardée d´un hotel Terminus s´il n´est pas du Nord. Du Sud, jamais, car le sud, c´est le soleil, l´espoir. Et nous sommes ici dans un quartier d´impasses. Pluie fine et glacée qui, sur les pavês, double l´image des passants. Passants pressés qui ont oublié leur ombre dans l´escalier du métro. Il sentait bon le sel et le sable chaud. Y avait d´la lumière dans ses yeux. Le sommier grince. Elle descend, ouvre le bistro aux ôdeurs de tabac froid. Une larme coule le long de son cou. Moi j´essuie les verres au fond du café, j´ai bien trop á faire pour rêver. L´accordéoniste laisse sa bicyclette contre la vitre. Un crême, qu´il fait en poussant son bêret loin sur le crãne. La boulangerie ouvre ses portes. Tiens, Jean, va prendre mes croissants, tu s´ras chic. Il traverse la place, revient. La fille sans joie du coin de la rue rentre chez elle. L´a pas dû faire son beurre cette nuit, il dit. Allez, prends donc un croissant chaud, c´est sur la maison! Le musicien la regarde. Quelque chose qui va pas? Ben quoi, on peut même plus être gentille? Non, évidenment, mais depuis les années que je viens ici, c´est bien la première fois... Et la dernière, qu´elle lui répond en rigolant. Il se tait. Faut pas abîmer ce moment. Jean rêvasse. Un café au lait au lit, avec des petits pains et des croissant chauds. Il la regarde, elle ne le voit pas. Va s´assoir sur la banquette, accroche son instrument aux épaules, joue un peu n´importe quoi, un air de java, bien sûr, comme pour rompre une impossible attente. Un jour tu verras, nous irons la main dans la main, entrainés par la foule, sur le sable des mots effacés, dans des jardins aux arbres effeuillés. Et sur ton corsage blanc, juste á la place du coeur, y aura comme un p´tit coquelicot, mon âme...

                                                                      Dimitri Ganzelevitch   
                       Salvador, 18 mars 2010.

Ari e os bem-te-vis

Primeiro domingo de setembro. Luz transparente de uma primavera que já se anuncia.  Para saborear o silencio na cidade baixa, tomarei meu chá matinal na mesa grande, aquela com tampo de mármore, lá na varanda. A oferenda diária aos deuses do céu fora depositada e a passarada está em festa. Ontem dois periquitos vieram beliscar a banana com exagero de comentários resmungões. Não sei se hoje também virão. Nada ousa riscar o mar da baia, liso como seda. Existem momentos assim na vida, simples, minimalistas até, quando nada acontece e que, talvez por isso mesmo, são revestidos de uma aura especial. Teriam parado os relógios?
De repente, algo como um clarão musical invade meu espaço sem pedir licença. De onde virá tanta despropositada alegria? Aproximo-me do gradil e procuro a festa, lá em baixo, pelos lados do quartel dos fuzileiros navais. Um cortejo é anunciado por uma longa faixa vermelha com letras douradas, carregada por dois jovens. Como adivinhei que são jovens? Sei lá... Pela forma leve de andar, pela vestimenta loucamente colorida, sem qualquer uniformização. Brilham os verdes, os turquesas, os brancos, os vermelhos. Relampeja o ouro dos instrumentos de sopro. O gramado nunca esteve tão verde, nem a água da piscina tão azul. Mangueiras e coqueiros foram cuidadosamente lavados com as recentes chuvas. E, mais belo neste momento que o Messias de Haendel, explode o verdadeiro hino desta terra: “Aquarela do Brasil”. Não dá para distinguir os rostos adolescentes, mas quem não seria feliz ao tocar tão deslumbrante música? Como é bom saber que ainda tem gente que se preocupa em transmitir tão precioso patrimônio, opondo-se a vulgaridade das gravadoras cuja proposta é impor lixo prontamente descarto. Hoje não se fala mais em música. O fashion é falar de som. E quando escrevo som, meus dedos escorregam para o termo decibéis que é o mais importante. De Lamartine Babo a Morais Moreira, só restam vagas memórias, como os obsoletos boleros de salão. Vivi, hoje, algo de muito raro e belo entre meus bem-te-vis e Ari Barroso...
                                                                          Salvador, 18 de setembro 2010

sábado, 18 de setembro de 2010

Maysa - Eu sei que vou te amar

Tive a sorte de assistir Maysa cantando esta obra-prima no Hotel Embaixador, em Lisboa em 1957(?) Não dá para esquecer...

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Sorria, você está ... Continue sorrindo, porra!


Gostosa tarde de setembro. Um casal de turistas franceses foi passear pela orla, e, chegando ao Jardim de Alá, resolveu tirar as sandálias e andar na praia. Logo após os massagistas, encontraram umas cadeiras de plástico. Sentaram e pediram duas garrafinhas de água mineral. Na hora de pedir a conta, entre o “kiti-praia”, as águas e o serviço, a bomba: R$36,00 reais! Quatro vezes mais caro que no Café de Flore em Paris... O tal de kiti-praia eram as duas cadeiras.

domingo, 12 de setembro de 2010

ALTA TENSÃO

Quase nove horas da noite. Uma chuva fina reveste as ruas de verniz prateado. Grandes guarda-chuvas protegem os apressados que se dirigem ao teatro São Carlos.
No hall de entrada, ao retirar os abrigos, luzem os longos vestidos e faíscam as jóias. Os homens de smoking tentaram individualizar o negro uniforme com uma borboleta, um colete, um cinto colorido. Ousadias.


Singing In The Rain (Gene Kelly)

Depois de assistir a esta seqüencia, quem não teve vontade de dançar debaixo da chuva? Este filme é considerado por muitos especialistas como um dos dez melhores da História do Cinema. Música, coreografia, roteiro... tudo é de altíssimo nível. Aproveite!

sábado, 11 de setembro de 2010

Setembro

Penso publicar uma foto a cada mês, que reflita a atualidade.

DELÍCIAS SÍRIAS

Você é gourmet, guloso, comilão?
Eu também sou. As três coisas ao mesmo tempo!
Então vamos agora nos aventurar pelos prazeres sírios da boca?

Sendo curioso por natureza, pouco hesito em experimentar novos sabores. Já comi jibóia, gafanhotos e outras estranhas iguarias. Mas pelas ruas de Damasco ou Alepo, nunca teremos que enfrentar qualquer tipo de desafio, já que tudo o que quitandas, botecos, mercados e ambulantes apresentam ao olhar e olfato do transeunte, é tentação pura. Impregnada de influência otomana, grande parte do Mediterrâneo, oriental e sul, oferece variações sobre os mesmos temas gastronômicos, tendo também em comum a similitude de matérias primas.


Para início de conversa, este é o paraíso dos vegetarianos, já que as entradas, os famosos mezze, feitos a partir de legumes e verduras, são uma festa em si. Quando, nos restaurantes, chega á sua mesa a variedade de pequenos pratos, cada um com seu tesouro diferenciado, feito de berinjela, abóbora, grão de bico, couve-flor, beterraba, abobrinha, cebola, tomate e queijos, não há quem diga que não tem fome. De manhã no café do hotel, lhe oferecerão queijo fresco apimentado com azeite e olivas pretas. A geléia de damasco é uma obrigatoriedade, a geléia de rosas antiga tradição e os sucos, geralmente à base de laranja, são um bom preparo para lutar contra a desidratação.


 Ao longo do dia, os apelos serão freqüentes, desde os vendedores de xarope de reglissa até os sorvetes já mencionados do Bakdash, se ainda não tiver deixado Damasco. Mas o verdadeiro perigo mora bem ao lado, seja nas ruelas da velha cidade ou das amplas avenidas dos bairros mais burgueses e mais banais. As pastelarias parecem surgir espontaneamente a cada passo. Pirâmides de folhados embebidos de mel, torres de cubinhos de massa podre com pistaches, nozes, tâmaras, castanhas.


A imaginação completa aquilo que não conseguirá provar. Mas como evitar as caixas de frutas cristalizadas e os balaios de frutas secas. Os amadores de chocolate costumam disputar a preferência entre os belgas e os suíços, mas todos se surpreendem ao entrar no Ghraoui, cuja sofisticação não fica atrás de um Fauchon ou Fortnum and Mason. Trufas, massapão e outras delícias até com recheio de licor, serão oferecidas em várias línguas por lindas vendedoras vestidas não sei se por Chanel ou Dior. Pois é. Engordar, você engordará, apesar das léguas a percorrer a pé entre mesquitas e museus. De tanto provar e beliscar, chegou um momento em que - só para parar de ceder à tentação da gula, delicioso pecado capital - quase desejei um Mc Donald! Outro clássico é o rahat lukum, o famoso turkish delight que os sírios denominam simplesmente de rahat. Ideal para levar aos parentes e amigos, mas fuja das lojas para turistas onde, além de pagar preços bem mais altos, nunca terá a certeza da data de fabricação. Saiba que um bom rahat não deve ter mais de duas semanas. É só ler a data na caixa. Enfim, se ainda tiver espaço para ingerir comida, existem restaurantes para todos os bolsos e mesmo os mais sofisticados não custam o suficiente para futuras insônias, nem que acompanhadas por um bom vinho libanês.




Quando, exausto, resolvia atender às súplicas de minhas pernas, escolhia um destes cafés que são o charme mais corriqueiro desta parte do mundo. Debaixo de toldos coloridos ou leves parreiras, sentava a pedir um café turco. Homens de todas as idades fumam narguilé e jogam gamão com infinita paciência.
Raras sao as mulhres que sentam nestes cafés, a nao ser turistas. Estariam em casa tratando das crianças ou fofocando? A realidade nao é tao maniqueista... Outro dia conto.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Ninotchka : Ninotchka rit enfin !

Não se fazem mais estrelas como naquela época. Greta Garbo era a deificação da mulher. Além de sua extrema beleza, foi uma das grandes atrizes de sua época. Em "Ninotchka" paródia do regime comunista pelo diretor Lubitsch, pela primeira e única vez da sua carreira, Greta Garbo ri.E como ri!...

Battleship Potempkin - Odessa Steps scene (Einsenstein 1925)

Esta talvez seja a sequencia mais dramática da Historia do Cinema, parte mais citada do filme "O Couraçado Potemkin"  O diretor russo Sergei Eisenstein é considerado  como um dos génios da Sétima Arte.

O PRIMEIRO FILME DA HISTÓRIA DO CINEMA

LA SORTIE DE L´USINE LUMIÈRE Á LYON

Para começar este novo garimpo, nada como reverenciar os pais do cinema, os irmãos Lumière. Aqui está o primeiro filme jamais rodado: a saida da fábrica Lumière. É curto, é mudo, nao tem roteiro, mas como emociona esta tentativa de dar vida a imagem!...25 de dezembro de 1895
Naquele dia nascia uma nova arte: a Cinematographia

GEORGES BRASSENS - JE ME SUIS FAIT TOUT PETIT + LYRICS

Georges Brassens foi considerado como iconoclasta ao interpretar sua composição "Le gorille" na década de 50. Vale a pena ouvir este cantor, bem na tradição dos antigos trovadores. Também excelente músico.Podemos afirmar que foi como um pai espiritual para o Jacques Brel.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Dans le Port d Amsterdam Jacques Brel english and french subtitles

Quando este jovem belga apareceu no fim dos anos 50, a canção francesa conheceu um terremoto. Sugiro procurar outras composições, de preferência interpretadas por ele próprio. "La valse á mille temps" é outra obra-prima.  

Nina Simone - Ne Me Quitte Pas

Quando apareceu esta versão de "Ne me quitte pas" de autoria do belga Jacques Brel, o mundo inteiro se apaixonou pela interpretação de Nina Simone. Ela morreu, mas sua voz continua nos emocionando como 50 anos atrás.

Miriam Makeba - Mbube

Não se pode falar de África sem mencionar o nome de Miriam Makeba, extraordinária cantora, extraordinária combatente contra o aparteid dos afrikanders. Aconselho investigar o Google para saber mais sobre ela e sua corajosa determinação. Mais talvez que Pata-Pata ou Click song, gosto de Mbube. E, como sempre, a música deste país é simplesmente maravilhosa.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Amália Rodrigues - Povo que lavas no rio (1961)

Tive a imensa honra e o enorme prazer de conhecer Amália Rodrigues, primeiro em Madri, numa festa no palco do teatro Madrid, apos apresentaçao do London Festival Ballet, em 1953. Jantamos juntos em Paris no Club des Artistes em 1959. .Depois reencontrei-a em Lisboa por várias vezes. Era bela, majestosa e simples. Quanto a sua voz, nada poderei acrescentar depois de você ouvir este belo fado. Só gostaria que, além da beleza do poema de Pedro Homem de Melo, reparasse nas semelhanças com a saeta de Daniela Navarro. A herança moura é mais de que evidente.

SAETA - DIANA NAVARRO

Difícil falar de cultura árabe e judaica 
sem passar pela Espanha. 
De Sevilha a Granada, as marcas são evidentes. 
Afinal, mouros e judeus por lá ficaram por oito séculos. 
É durante a Semana Santa que podem ser ouvidas 
as magníficas "saetas". 
Não podem negar sua origem. 
o cantadas quando passam as procissões. 

Diana Navarro é minha preferida.

RETALHOS 19

Quem sou eu para elaborar teorias?... Mas, lendo o jornal, não pude deixar de estabelecer paralelos entra a ascensão irreal de Dilma, filha espiritual de Lula que poucos conheciam até alguns meses atrás, para o paraíso de Brasília e o massacre de Pau de Colher, no norte da Bahia, em 1936. Ambos me parecem decorrer de um fenômeno tipicamente latino-americano, o messianismo. Coloquem no mesmo saco Evita Perón, Getúlio Vargas, Antônio Conselheiro, Padre Cícero e outros cuja marcada personalidade fanatizou as multidões. No caso de Vargas, que entregou Olga Benário, uma mulher prenha ao Hitler, pelo simples fato de ser judia, como não lembrar dos dois pugilistas cubanos exilados políticos que foram entregues pelo PT de volta ao Fidel Castro? A História talvez não se repita, mas como tem semelhanças cíclicas!... É bom ficarmos de olhos e ouvidos bem abertos.

A praga da FIFA
Dizem que o governo, sempre para agradar a FIFA, vai acabar com o belo canteiro da Avenida Paralela. Como temos áreas verdes em excesso, viva o desmatamento selvagem! Tudo isso para três dias de euforia “esportiva”... ou, também, alguns anos de enriquecimento das empresas ligadas à máfia do futebol. Até quando estas agressões? Claro que as empresas de ônibus também têm sua parte do bolo. Senão nada seria mais lógico que construir um metrô até o aeroporto, como em qualquer capital civilizada.

Corpo e alma
Um dos melhores programas do ano no Teatro Castro Alves, foi sem dúvida, neste princípio de setembro, a passagem do mineiro Grupo Corpo com dois clássicos de seu repertório. Há muito tempo que não assistia a este conjunto que, sem hesitação eu coloco logo atrás da companhia Deborah Colker, ambas de qualidade internacional. A primeira parte “Imã” condiciona palco e público numa tensão constante e proposital. Excelente trabalho musical do +2, em especial um belíssimo solo de violoncelo. Aliás, esta parte foi muito bem analisada pela Cássia Candra, destacando, no jornal A Tarde, o contraponto dançado.
Após o intervalo, a sedução ficou por conta das deliciosas composições de Ernesto Lecuona. Para os que pretendem ironizar sobre a obra do cubano, é bom lembrar que ele chegou a estudar na França com Maurice Ravel, portanto estamos frente a um profissional dos mais competentes. E sensíveis, como provam as belas canções de amor ilustradas pela inteligente coreografia de Rodrigo Pederneiras. Este vasculhou o patrimônio neoclássico de Marius Petipa - ele, sempre ele - a Balanchine e Anton Dolin, sem nunca se repartir de discreto humor, deixando o espectador entre sorriso e emoção. As canções falam de paixões e desencantos, como em todas as culturas e todos os tempos.

Nelas, o Pederneiras cola figuras banhadas em romantismo, sensualidade e contemporaneidade, referências ao estilo “Lago dos Cisnes” que casam perfeitamente com a bela xaropada. Afinal Tchaikovsky não ficou atrás em matéria de xarope e ninguém acha ruim. Também apreciei o gran finale com exagero de espelhos e roupas luxuosas que remetem a toda uma cultura latina dos anos 30-50. Podem chamar de kitsch, cafona ou cursi, mas Jorge Negrete, Conchita Piquer, Maria Felix, Dalva de Oliveira, as Folies-Bergère e até Carmen Miranda representavam um mundo irreal de ouros, brilhos, paetês, cristais e espelhos. Teria somente algumas pequenas restrições. A primeira é achar um pouco longa cada obra, mesmo que de alto nível, tanto como criação quanto interpretação. A noite teria ganhado com alguns cortes, nem que fosse para apresentar uma terceira peça. A segunda observação é de não haver a mínima referência à extraordinária cantora que interpreta Lecuona. Trata-se da também cubana Maria de los Angeles Santana que, se ainda estiver com vida, deve aproximar-se dos 100 anos. Poucas cantoras latinas hoje ostentam tão imenso talento e técnica vocal, a não ser, talvez, uma Tânia Libertad. Enfim, continuo não concordando com o acesso livre do TCA a bermudões. Decoro faz parte.

Não ria: é triste!
Esta eu peguei no Bahia Notícias, sem pedir licença ao Samuel Celestino: “O secretário de Segurança Pública do Estado (SSP), César Nunes, antecipou em primeira mão ao Bahia Notícias que, enfim, vão sair das caixas os equipamentos de comunicação adquiridos para a polícia. Os radiotransmissores irão possibilitar a instalação do Sistema de Gestão de Informações Policiais, que integrará as policiais Militar, Civil e Bombeiros, as viaturas das polícias e a central 190. Os equipamentos, no valor de US$ 8 milhões, estavam embalados e estocados há 4 anos no almoxarifado da Secretaria de Saúde. Em entrevista ao BN no desfile de 7 de Setembro, Nunes assegura que, em até seis meses, serão concluídas as construções dos 22 departamentos de comunicação da Segurança pelo estado. À medida em que os centros entrarem em funcionamento, serão instalados os aparelhos de comunicação. Segundo o gestor, 10 departamentos já estão em funcionamento com os equipamentos na capital, Região Metropolitana, Feira de Santana, Vitória da Conquista e Itabuna. A demora na instalação do sistema de gestão motivou criticas de opositores.” Sem comentários.

Abandono
Alguma praga jogaram no o bairro de Santo Antônio. Depois da Luciana Rique que expulsou 35 famílias, agora é a atriz Regina Cazé que comprou duas casas bem na frente do Hotel Convento do Carmo, há uns dois anos, e até hoje não fez absolutamente nada com elas. A cada dia elas vão se deteriorando e contribuindo para a desertificação da área. Já foram assaltadas. Qualquer dia serão invadidas. De quem a culpa?
Surrupiu?
Quem acha que os condomínios Alfaville II e Greenville vão ter que devolver terras que foram abocanhadas pelos construtores, pode tirar o cavalinho da chuva. Com tanta grana envolvida, tudo será como dantes no quartel da especulação imobiliária. Pelo sim, pelo não, nosso querido prefeito saiu a tempo do Alfa.

Um deputado está andando tranqüilamente
quando é atropelado e morre.
A alma dele chega ao Paraíso e dá de cara com São Pedro na entrada.
-'Bem-vindo ao Paraíso!'; diz São Pedro
-'Antes que você entre, há um probleminha.
Raramente vemos parlamentares por aqui, sabe, então não sabemos bem o que fazer com você.
-'Não vejo problema, é só me deixar entrar', diz o antigo deputado
-'Eu bem que gostaria, mas tenho ordens superiores. Vamos fazer o seguinte:
Você passa um dia no Inferno e um dia no Paraíso Aí, pode escolher onde quer passar a eternidade.
-'Não precisa, já resolvi. Quero ficar no Paraíso diz o deputado.
-'Desculpe, mas temos as nossas regras. '
Assim, São Pedro o acompanha até o elevador e ele desce, desce, desce até o Inferno.
A porta se abre e ele se vê no meio de um lindo campo de golfe.
Ao fundo o clube onde estão todos os seus amigos e outros políticos com os quais havia trabalhado.Todos muito felizes em traje social.
Ele é cumprimentado, abraçado e eles começam a falar sobre os bons tempos em que ficaram ricos às custas do povo. Jogam uma partida descontraída e depois comem lagosta e caviar. Quem também está presente é o diabo, um cara muito amigável que passa o tempo todo dançando e contando piadas.
Eles se divertem tanto que, antes que ele perceba, já é hora de ir embora.
Todos se despedem dele com abraços e acenam enquanto o elevador sobe.
Ele sobe, sobe, sobe e porta se abre outra vez. São Pedro está esperando por ele..
Agora é a vez de visitar o Paraíso.
Ele passa 24 horas junto a um grupo de almas contentes que andam de nuvem em nuvem, tocando harpas e cantando. Tudo vai muito bem e, antes que ele perceba, o dia se acaba e São Pedro retorna.
-'E aí ? Você passou um dia no Inferno e um dia no Paraíso.
Agora escolha a sua casa eterna.' Ele pensa um minuto e responde:
-'Olha, eu nunca pensei .. O Paraíso é muito bom, mas eu acho que vou ficar melhor no Inferno.' Então São Pedro o leva de volta ao elevador e ele desce, desce, desce até o Inferno. A porta abre e ele se vê no meio de um enorme terreno baldio cheio de lixo. Ele vê todos os amigos com as roupas rasgadas e sujas catando o entulho e colocando em sacos pretos. O diabo vai ao seu encontro e passa o braço pelo ombro do deputado.
-' Não estou entendendo', - gagueja o deputado - 'Ontem mesmo eu estive aqui e havia um campo de golfe, um clube, lagosta, caviar, e nós dançamos e nos divertimos o tempo todo. Agora só vejo esse fim de mundo cheio de lixo e meus amigos arrasados!!!' O diabo olha pra ele, sorri ironicamente e diz:
-'Ontem estávamos em campanha. Agora, já conseguimos o seu voto...'

Avre Tu Puerta Cerrada- Ladino

A riqueza e variedade da cultura musical judaica tiveram lugar de destaque na formação da civilização ocidental. Escutem este cantor, Hezy Levy, especializado em cantos ladinos. Muitas desta composições remontam a Idade Média.O ladino é uma linguá oriunda do casamento entre espanhol arcaico e hebreu. 

PALESTRINA, SEMPRE!

Tenho uma cultura e sensibilidade mais voltadas para o olhar. Mas como desconhecer a voz de tantos  povos e civilizaçoes? Portanto resolvi garimpar e compartilhar estes momentos musicais com você, começando com o grande mestre Palestrina. E vejam o que encontrei no youtube! 
Um grupo de jovens que longe de badalações, pagode e axé music escolheram unir suas vozes para cantar na maior nobreza do termo.
 O regente é o cabeludo de camiseta 11.



Giovanni Pierluigi da Palestrina (Palestrina3 de fevereiro de 15251  — Roma2 de fevereiro de 1594) foi umcompositor italiano da Renascença. Ele era o mais famoso no século XVI, representante da Escola romana. Palestrina teve uma grande influência sobre o desenvolvimento da música sacra na Igreja Católica Apostólica Romana.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Queridos amigos (Chez Bernard)

Azar vosso, aquele de sair durante um feriado prolongado das tormentas do Rio de Janeiro para mergulhar nas chuvaradas de Salvador, desmistificando as oliudianas imagens da Bahiatursa... Depois do suco de acerola em minha casa, aturando a barulheira festiva do quartel dos fuzileiros navais lá no Pilar, resolvemos investigar as divulgadas excelências de um velho restaurante, agora sob nova gerência.

Criticar é preciso

Durante algum tempo, até a Gazeta Mercantil encerrar sua publicação em Salvador, tive a incumbência de assinar uma coluna quinzenal de crítica de restaurantes. Foi uma bela, mas espinhosa experiência.
Numa terra onde 90% dos que possuem uma parcela de poder são primos ou compadres, criticar objetivamente um serviço comercial, especialmente quando dedicado à difícil tarefa de agradar o paladar, não é sinecura nenhuma, podem acreditar!
Quando convidado para esta coluna, coloquei umas condições básicas para enfrentar o desafio. O jornal teria que pagar, além de meu pró-labore, a conta da refeição para duas pessoas e eu não poderia nunca revelar minha identidade antes de pagar a conta. Questão de ética. Evidente? Nem tanto para quem conhece o submundo das mídias.
Resolvi começar pisando em ovos e na ponta dos pés. Para tanto, escolhi o “Chez Bernard”, restaurante que julgava acima de qualquer suspeita. Reservei, na véspera, a mesa em nome de fantasia e lá fui eu, acompanhado de uma amiga jornalista da Gazeta. Era uma terça-feira, por volta das 13 horas. Estranhamos haver só outra mesa ocupada por quatro pessoas, que, mais tarde, se revelaria sendo o dono da casa e família. A última vez, uns dois anos antes, que sentara numa mesa junto à bela vista sobre a baía, fora em companhia de Leonardo Matias, então embaixador de Portugal em Brasília, Jorge Calmon, Samuel Celestino e outras pessoas de destaque, grupo do qual fiz parte naquele dia pela única razão de ser muito antigo conhecido do diplomata lusitano.
Bem, para encurtar a narrativa, o almoço foi, do começo ao fim, um desastre. Até água suja com detergente encontramos nos escargots! Salvou-se, boiando na catástrofe, a gentileza do velho garçom e a aconchegante decoração.
Paguei, justamente aborrecido, e fui redigir minha primeira crítica gastronômica. Mesmo tentando aparar as arestas, meu texto foi corrosivo e sua publicação levantou protestos, não somente da direção do “Chez Bernard”, mas até do próprio chefe de redação do jornal. Este me telefonou, muito nervoso, com o curioso argumento: “Você não pode escrever este tipo de crítica”! Retruquei com certa indignação que crítica é crítica e que, se era para fazer simples propaganda, teríamos que rever os termos do acordo, já que, para mim, o respeito é antes de tudo para com o leitor, se o restaurante é ruim, nada vai me convencer a escrever o contrário etc.
A direção-mor sediada em São Paulo tinha, felizmente, outra filosofia de jornalismo. Mandou ordem de trégua e, a partir deste momento, pude redigir da forma que melhor me pareceu. Elogios para o Paraíso Tropical, para o Galpão, e entusiasmo para o Soho. Restrições para o Trapiche Adelaide. A respeito deste estabelecimento, um conhecido que trabalhava no Liceu de Artes e Ofícios, me alertou da fúria de uma senhora da diretoria ao ler a critica sobre o “Tudo branco” da avenida Contorno, prometendo mandar a Gazeta me demitir. Não fui demitido e, pelo que ouvi li na imprensa há poucas semanas, o restaurante está em vias de fechar. Mesmo assim, teve vida longa.
Salvador não tem, até hoje, nenhum verdadeiro crítico gastronômico. Teve, no máximo, cronistas que se aproveitaram da boca livre para se empanturrar, geralmente na companhia de amigos oportunistas. Esta carência tem o grave inconveniente de impedir qualquer possibilidade de parâmetros. Sem crítica, os restaurantes ficam à mercês dos modismos, sempre passageiros. Análise embasada e sem paternalismo é indispensável contribuição para melhorar o padrão de qualidade dos restaurantes na Bahia.

Dimitri Ganzelevitch
Salvador, 10 de outubro de 2009

Na rua Ruy Barbosa

Tivéssemos outros governantes, a rua Ruy Barbosa seria bastante mais atraente. Mas nem o rebanho de vereadores confortavelmente instalado bem no meio dela se preocupa. Quem por lá passa não se lembra de detalhar o casario, mas lhes digo: vale a pena deter-se na descoberta da rua. Começa por um imenso painel de Carybé e uma belíssima farmácia homeopática, terminando pela muy nobre casa de Ruy Barbosa.
É a rua dos antiquários mais tradicionais da Bahia. Lustres, jóias, cristaleiras, espelhos, porcelanas, armários centenários, altares barrocos e curiosidades coabitam sem preconceito com cópias de móveis coloniais e laliques argentinos. Um dia, talvez, teremos os fundos do Museu do Negro, com entrada pela rua do Tesouro. Reparem naquela pietà, curiosamente colocada nas alturas. Não tem ares de Michelangelo? Bem, olhando de longe...
O mais famoso sebo de Salvador reina absoluto no princípio da rua. Mas cuidado. Ao pedir o preço de algum livro usado, você será avaliado por olhar perspicaz antes de ouvir a resposta. Ruelas e vielas a cortam, umas subindo, outras descendo desvairadamente, como a ladeira do Berquó que abriga a magnífica sede do Iphan. Como gostaríamos que os belos painéis de azulejos deste solar fossem acessíveis a visitação pública!
Por hora, como já é meio-dia, não vamos deslizar ladeira abaixo, mas penetrar na casa da esquina, n° 29, casa do princípio do século XIX, cujos donos tiveram o cuidado de manter, na medida do possível, o aspecto original. Dans son jus. Trata-se de um dos mais deliciosos restaurantes da cidade que, prova de qualidade, existe há mais de quarenta anos. Um casal a antiga responde pela hospitalidade, o cardápio e a extrema higiene dos espaços. Don Luiz, galego com muita honra é o RP do restaurante e a redondinha Karina, baiana da gema, tudo controla por trás de seu balcão enfeitado de grinaldas.
Se o patrão é um sorridente bon-vivant que muito aprontou até poucos anos atrás, a patroa, olho sempre bem aberto, é exímia artista, como bem provam as pinturas espalhadas pela casa. Outros colegas ofereceram obras, em legítima prova de apreço. Emanoel Araujo, que costuma aqui almoçar, sempre com chapéu na cabeça e sua corte ao lado, foi o mais generoso. Foi e continua sendo. Outros fizeram questão de figurar nas paredes, como Calazans Neto, Mario Cravo, Ademir Martins, Carlos Bastos, Genaro de Carvalho, Justino Marinho, Ieda Maria, Luis Jasmim e Cesar Romero. Antigas fotos do centro de Salvador completam o sabor histórico e cultural do Mini-Cacique.
Mas a arte maior está no cardápio, encruzilhada de três culinárias: baiana, portuguesa e espanhola. Alguém ainda não ficou convencido? Então, por favor, vá conferir! Nas minhas freqüentes investidas no local, contento-me com os pratos do dia, de preços muito razoáveis e fartura fugindo de qualquer intenção nouvelle cuisine.
O que costumo comer? Língua e rabada. Você não acha chique? Paciência. Eu quero é comer o que me agrada e os dois extremos bovinos são uma festa para meu paladar. Já na sexta-feira, dia mor da casa, gente fazendo fila, minha gula hesita entre lulas com batatas e arroz de polvo, ambos preparados pelo maestro Don Luiz. Não acredito que haja, no Porto, Compostela ou São Paulo, chefes que possam com ele rivalizar.
Se a adega de vinhos nunca foi notável, assim mesmo é possível encomendar um honesto tinto português Periquita, bem melhor que o costumeiro “carrascão” servido nas tascas de Lisboa. Como nunca dispenso sobremesa, quando tem, vou direto ao doce de leite, preparado pela própria artista.
Único senão, o cafezinho que ainda não acompanhou a evolução da sociedade. Mas nada que seja dramático. É só subir até outro sebo, o Berinjela, na rua da Ajuda, para saborear um bom expresso e futucar nas prateleiras para outro nutriente, o do intelecto.
Se bem que tão boa refeição como aquela também é coisa para ocupar a cabeça...
E aqui, neste sebo, os livros têm preço a lápis escrito na contracapa.

Dimitri Ganzelevitch
 Salvador, 21 de setembro de 2009.
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