sábado, 29 de dezembro de 2012

O PT DA ESPERANÇA




por JC Teixeira Gomes



É costume que articulistas de fim de ano realizem o inventário do tempo que passou, mas, na verdade, o tempo não passa, quem passa somos nós. As manhãs que douram este abrasador verão são iguais àquelas que Adão e Eva contemplaram no Paraíso: eles passaram, mas nossas manhãs continuam exatamente iguais às dos tempos bíblicos. O tempo é apenas uma ficção dos humanos. Quanto ao inventário, a conduta dos povos também não varia muito: guerras, crimes brutais, crises, mas o espírito do homem é inquebrantável. Ele sempre acredita que tudo ficará melhor.
     No Brasil, a grande surpresa foi a conduta do Supremo no julgamento do mensalão. Não nos alegra a certeza de que políticos roubavam o povo, porém é confortador verificar que uma instituição brasileira relevante soube cumprir o seu dever com dignidade e competência.
    A última análise que fiz das condenações provocou irritação entre petistas. Meu querido colega Oldack Miranda escreveu para A TARDE criticando o seu velho amigo, que ele qualifica de “antigo polemista”. Ora, Oldak é um bravo, um inconformista, Deus o preserve. No governo Waldir Pires ocupou cargo essencial, era quem articulava a comunicação oficial com a opinião pública, prática inédita na Bahia. Infelizmente, não lhe deram os meios materiais para construir a ponte povo-governo.
      Oldack não leu bem, porém, meu artigo: escrevi que enquanto houver bolsa família e cotas raciais a popularidade de Lula estará assegurada, fato que a pesquisa Datafolha confirmou, embora em queda. Vejo a primeira medida como um recurso eleitoreiro, pago com o dinheiro do povo brasileiro, que não pode viver de esmolas e sim ter emprego e ganhar dignamente, para ter vida decente e produtiva. Quanto às cotas, é uma reparação duvidosa e tardia, que criar injustiças acadêmicas e atrapalha o mérito do saber, mas, enfim, abre mais espaços para um povo oprimido. Fui professor universitário por mais de trinta anos e nunca presenciei discriminação nas salas de aula, mas concordo que a estrutura social do Brasil é absurdamente injusta e o acesso à formação universitária deve ser democratizado. Não estou certo, entretanto, de que as cotas, imitadas de um país racista, são o melhor caminho para compensar injustiças históricas.
     Curiosamente, o velho Oldack omitiu a maior realização do governo Lula: a maneira elogiável como enfrentou a crise econômica provocada em 2008 pelos bancos americanos, arruinando o mundo. Em vez de fazer como era habitual no governo de Fernando Henrique, que compensava as crises do capitalismo aumentando impostos, congelando salários, perseguindo aposentados e favorecendo os bancos com o programa Proer, o governo Lula reduziu alíquotas, assegurou aumentos salariais, injetou recursos na economia e zelou pela estabilidade das empresas. Este é o PT que Dilma Rousseff não tem imitado, pois, ao contrário de Lula, é uma governante tensa, sem cintura política e obcecada por catástrofes econômicas, que a insegurança atrai.
     Também devo dizer ao velho Oldack que, além de repudiar o PT do mensalão, não aceito, igualmente, o PT que, golpeando toda a sua tradição histórica, obteve de um Congresso comprado a reforma da Previdência ( tão combatida pelo partido durante o governo FHC) e beneficiou os bancos da corrupção com o afrontoso empréstimo consignado dos funcionários públicos, prática que se transformou no abominável Proer do PT. Tampouco assimilei aquele abraço de Lula em SP para ganhar eleição: quem abraça Maluf pode perfeitamente achar natural e planejar o mensalão. Ou quem cultiva aliados como Sarney, Calheiros, Jucá etc., a fina flor do que há de mais retrógrado em política no Brasil.
     Para concluir, devo afirmar que, se jamais fui um adorador de partidos políticos, há um PT no qual acreditei: não, obviamente, o de Dirceu, Genoíno e Delúbio, mas sim o de Plínio Arruda Sampaio, Heloisa Helena, Chico Alencar, Herbert de Souza, Antonio Cândido, Fabio Konder Comparato etc., com a linha auxiliar de Frei Betto e Frei Leonardo Boff. Por sinal, salvo quem já morreu, por onde anda essa gente, que construiu o PT da esperança?   

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