Certa vez, deve haver uns seis anos, recebo e-mail de um
velho amigo mexicano, artista contemporâneo de renome. Anunciava-me a vinda a
Salvador de um antiquário, mexicano também. Viagem de negócio.
Poucos dias depois, o telefone toca. Era o tal. Voz alegre,
comunicativa. Convido-o para almoçar em minha casa, convite que muito parece
ter-lhe impressionado. Antes de desligar, pergunta se conheço alguém
interessado num desenho do Diego Rivera. Respondi que não me parecia o mercado
ideal para vender algo, mesmo modesto do mestre do muralismo mexicano. O mais
certo sendo, sem dúvida, São Paulo e, bem mais seguro, Nova-Iorque.
No dia seguinte abro a porta a um homem baixo, forte, com
bigodes. Uma caricatura de mexicano. Só lhe falta o amplo sombrero bordado. Durante
a refeição, após conversar a respeito de seus contatos com diversos
antiquários, torna a me perguntar sobre o desenho de Diego Rivera. O preço?
Quase nada... uns cem mil dólares. Eu não estaria interessado? Faria um bom
preço, pela gentileza do convite. Que tal cinqüenta mil? Dez mil?... Mil
dólares?
Começo a olhar o bigodudo com uma ponta, uma pontinha só, de
desconfiança. E me pergunto como meu amigo me mandou aquele fantasista sem me
prevenir do personagem.
No meio do rango, o antiquário se levanta, vai pegar uma
revista da qual sobressai uma folha maior de papel. Logo vou falando: “Você vai
estragar a obra! Por que não a colocou numa pasta mais adequada?” Visivelmente,
a conservação de uma obra tão significativa não parece incomodar meu convidado.
Antes da sobremesa, ao lado de meu prato com sobras de peixe, lá estava, sem a
menor ceremônia, um desenho colorido, devidamente assinada pelo marido de Frida
Kahlo. E com um discurso algo surpreendente: “Como usted me há recebido tan
amablemente, le ofresco este dibubo. Solo le pido que mande hacer un bello
marco”.
Estou convencido que nenhum dos meus leitores jamais recebeu
um presente de cem mil dólares- ou mesmo mil dólares que seja – como
agradecimento de um simples almoço.
Depois do café, o homem com aspecto de mariachi, teve a
delicadeza de acrescentar algumas informações: “Na verdade este belo desenho é
do atelier do maestro. Foi um ajudante que fez”. Não esclareceu quem tinha
assinado.
Táva tudo explicado!
SÓ PARA ESCLARECER A ILUSTRAÇÃO DESTE TEXTO: NÃO SE TRATA DO TAL DESENHO. NA VERDADE, NEM SEI ONDE METI A PEÇA!
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