sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

"FIM" O LIVRO DE FERNANDA TORRES

 (Ou, um post inviável para quem não gosta de ler) 

Malu Fontes*

Prescrição: não curtir 1 minuto após a postagem, pois ninguém consegue ler três páginas de word neste tempo. E é isso que torna tanta curtição pouco verossímil. Um avatar posta um texto looongo e, em segundos, há 100 curtidas. Como, se não houve tempo hábil para ninguém ler aquilo?


Sim, talvez eu sequer tocasse em "Fim" para folheá-lo numa prateleira de livraria, mesmo que sua capa criativa seja uma atração à parte, não fosse o nome da autora: Fernanda Torres. Não, a atração também não se deveu apenas à curiosidade por se tratar da atriz global, sempre em evidência, a Fernandinha cria da Fernandona, imagem íntima de quem cresceu vendo TV. A atração pelo livro, sim, se deu pelo fato de a autora ser Fernanda, a Torres, mas por motivos outros. Por gostar do estilo do texto na coluna que ela escreve na Folha de S. Paulo, talvez. Ou, quem sabe, tenha lançado o primeiro olhar sobre o livro por outros percursos do imaginário... O fato de, durante tanto tempo, por exemplo, ter me identificado hilariamente com as histerias e comicidades de sua Vani dentro de suas calcinhas box. Quem nunca gargalhou com uma cena de Os Normais, bom sujeito não é.

Assim, desarmada de intenções óbvias - ler um livro de ficção da atriz da Globo para depois dizer frases feitas do tipo "ah, duvido que, se fosse uma desconhecida, a editora publicasse isso", ou "como não teme se expor, arriscando-se no mundo incerto da escrita ficcional, já tendo os pés tão bem fincados na dramaturgia?" - comprei "Fim" e li suas exatas 200 páginas de uma sentada, num domingo. E tenho dito: o livro contém um grau alarmante de surpresa para o leitor. É deslumbrante.

Como, para quem gosta de literatura, é impossível ler um romance sem buscar ou encontrar nele referências outras, literárias ou não, sem esforço esbarra-se talvez na mais facilmente encontrável em “Fim”: a comédia de costumes. Mas, no livro, talvez seja mais correto ou adequado renomeá-la como tragédia de costumes. Nessa primeira percepção, o leitor escorrega numa casca de banana que o leva a revisitar um quê dos tipos cariocas de Nélson Rodrigues, mas em um Rio de Janeiro de outras décadas, quando os modos de vida amorosa e sexual já não eram ditados pela bolinação, ora frígida ora culpada, das engraçadinhas da vida e, tampouco, pela sonsidão brejeira e perversa das cunhadas virgens ou dos maridos cafajestes encharcados de álcool. O tempo de Fernanda Torres é outro: sexo, drogas e nem tanto rock'n roll assim: a loucura que veio com os anos 60, teve seu apogeu nos anos 70 e morreu de overdose ou Aids nos anos 80. O tempo dos tipos de Fernanda já estavam na fase da ressaca saudosista, melancólica e solitária nos anos 80 e são o que hoje os cariocas identificam fácil como os velhinhos e as velhinhas de Copacabana. Ah, o buraco da fechadura desvelado por "Fim" revela o que os respeitáveis senhores e as curiosas senhoras que hoje claudicam nas calçadas da Cidade Maravilhosa foram capazes de fazer nos verões passados.

Não, não se compara a aqui Fernanda com Nélson, nem os tipos de uma com os tipos do outro, afinal não é porque as redes sociais existem - e servem para que qualquer um publique um texto como este - que a gente pode se autorizar sem pudor a sair por aqui dizendo asneiras. Mas quem leu Nélson percebeu que Fernanda também o leu e que seus personagens também são, como os dele, besuntados em metade comédia e metade tragédia.

Mas "Fim" tem prenhez em série de referências, todas elogiáveis e dessas que fazem bem para o alargamento da consciência que vamos adquirindo na vida e que pode até nos deixar mais sorumbáticos, mas mal não faz, nunca. Fernanda, em seu livro de estreia, tripudia das fronteiras estabelecidas no mundo pela ideologia da correção política e fala com autoridade e absolutamente nenhuma sisudez de temas que são caros a todos nós, mulheres e homens, jovens e velhos, solteiros e casados. Sim, é boa além da conta e do esperado quando ironiza, e mesmo assim emociona, narrando as dores e delícias da condição feminina, do peso insustentável que o homem de qualquer tempo sempre se impôs carregar para, falsamente, convencer a si mesmo que é o tal, descrevendo o horror, o humor, a euforia, a alegria trágica e o luto certeiro que sempre rondam uma das mais perversas e indescritíveis formas de pacto social que a humanidade inventou: o casamento.

Também, para quem viu os filmes do canadense Denys Arcand, "O declínio do império americano" e "Invasões bárbaras", é impossível dissociar a rota de vida dos personagens dos dois filmes da rota traçada pelos dos de "Fim". O nó dramático da narrativa é o mesmo: a velha pergunta para a qual só os ingênuos acham que já têm ou encontrarão a resposta. O que fizemos ou faremos de nossas vidas e em que ponto exato delas escolhemos a esquina errada que nos levou ou levará ao fim? Sim, pois só os auto-santificados ou auto-enganados vivem certos de que fizeram ou estão fazendo a escolha certa. A única certeza possível é: duvidar é preciso. Nos filmes de Arcand, a pergunta aparece, no primeiro, entre um grupo de jovens amigos intelectualizados reunidos em clima de euforia. No segundo, no reencontro dos mesmos amigos, anos depois, agora em torno de um deles moribundo, irreversivelmente à beira da morte.

"Fim" reúne cinco homens à beira da morte - todos, exceto um, septuagenários ou octogenários, levados da vida pelos males inerentes da velhice; um único por um câncer desses que não permitem sequer tempo para refletir sobre o diagnostico. Nisso, no fato de ser uma narrativa em retrospectiva, um flash back sobre a contabilidade da vida, surge algo de Machado em Memórias Póstumas de Brás Cubas, mas um “algo” de responsa, com tanta picardia quanto. Se mulheres não podem narrar suas vidas eclipsando os homens que por ela passaram, com os velhinhos morrentes da zona sul do Rio as coisas não são diferentes. A história do livro se dá no cruzamento da vida deles com as mulheres que lhes marcaram ou foram marcadas, em meio à loucura que era a vida da classe média que colocou em prática a revolução sexual pós pílula e o culto às drogas como quase uma religião que dava à vida o sentido que a sobriedade e a abstinência em relação a elas parecia negar.

Há poucos dias, embora falando de outra coisa, o sempre bom e velho Ney Matogrosso reduziu e definiu em entrevista no Programa do Jô o que acontecia nas surubas do Rio de Janeiro, orgias que a geração dele pegou do ápice à rebarba (o medo da ou a morte pela Aids) e das quais 15 era o número médio de participantes. "Nada, Jô. Não acontecia nada", respondeu Ney gargalhando, descrevendo que, enquanto se tentava beijar a boca de um, a perna de outro atrapalhava, a bunda de um terceiro já escapulia por sobre a cabeça de um quarto e assim o bolo de gente inviabilizava tudo. Caetano, embora falando de outra coisa, na canção "Odeio você", também descreve como oca, ao final, a busca desmesurada de prazer sexual com deus e o diabo: "veio a maior cornucópia de mulheres/todas mucosas pra mim/o mar se abriu pelo meio dos prazeres/dunas de ouro e marfim/foi assim, é assim, mas assim é demais também".

Sim, como me dizem sempre pessoas que parecem gostar de mim (ou assim o dizem), talvez a minha descrição de "Fim" seja melhor que o livro em si. Tenho esse aleijão da hipérbole diante das coisas que me encantam e elas as vezes me traem. Mas, como escreveu Pirandello, “assim é, se lhe parece”. “Fim”, então, me parece um excelente presente para quem gosta de leitura. Se assim o for, para quem me lê agora e já leu o livro, ou o fizer movido pela curiosidade despertada por minha opinião, não há de ser nada. Peço desculpas. Sigamos adiante. Na próxima, quem sabe, eu me aproximo de algo mais consensual, quem sabe... Mas, como essa não é uma resenha comercial, ou seja, não fui paga pela editora ou por quem quer que seja para escrevê-la, e esse é um período do ano em que as pessoas adoram escrever coisas com o sentido de compartilhamento, etc. e tal, resolvi escrever sobre "Fim", antes que passasse o impulso, ainda sob o impacto das primeiras impressões pós leitura, enquanto os capítulos e personagens ainda estão frescos e o livro não foi parar na lista dos mais vendidos das vejas da vida. Escrevo, acho, por três razões: de fato achei-o incrível e o recomendo sem restrições; as redes sociais são esse quadro em branco onde se pode escrever quase tudo (quem não tem bom senso esquece sempre o quase); e, por fim, escrevo porque é dezembro.

Em dezembro, o povo desperta uma vontade adormecida de escrever e sai por aí desejando felicidade a todo mundo. Não só felicidade, mas, sobretudo prosperidade, essa palavra morta, mas ressuscitada nessa época do ano. As redes sociais assassinaram os cartões de Natal e Feliz Ano, mas não a febre de manifestações de desejos supérfluos dessa natureza. Preparem-se para ver e ler aqui, “no feice”, as coisas mais insanas e fora de propósito, desejadas a você e por pessoas que, no fundo, não fariam a menor diferença se desaparecem de vez de nossas vidas, os típicos amigos que podemos chamar de bola de sabão: vivem explodindo e sumindo no ar. Quando aparecem, ou reaparecem, uma vez por ano e olhe lá, dando algum sinal de vida, dizem que nos adoram, nos admiram, amam, blá blá blá, que somos foda. Mas, se um dia você tiver um infarto, um avc, fraturar uma vértebra cervical, amputar um pé ou tiver um diagnóstico de tumor maligno no centro do cérebro, não espere uma visita dos bolas de sabão. Sequer um telefonema. Conte com um whatspp insosso e pouco original, no máximo. Mas aí, vindo deles, não vale, porque o mérito é todo da tecnologia, of course. Sim, sou daquelas que riem de quase tudo e com quase todos, mas acho graça, aqui com meus botões, de, com e em muito poucos. Admiro profundamente os inteligentes e os afetuosos, a ponto de praticamente situá-los na mesma categoria. Não falo dos pegajosos. Esses não fazem parte da categoria humana e só fazem sentido para quem crê em karma. Sou dessas capazes de dar, literalmente, uma córnea ou um rim para quem um dia atravessou a cidade para encontrar um hidratante sem álcool na botica mais antiga e charmosa de Salvador porque sabia que eu precisava mesmo de um e não era por estética. Reconheço de longe um gesto amoroso e, principalmente, gentil e delicado. Mas, na mesma proporção, vou ao subsolo do inferno, sem escada e no escuro, só para dar um sorrisinho de canto de boca ao me certificar que um desafeto está lá e vai demorar a sair. Se sair.

Ou seja, enquanto a Bamor, Os Imbatíveis, os militantes do PSOL e as amigas velhinhas de Monsenhor Sadoc serão inundados simultaneamente pelo espírito natalino e novidadeiro pró 2014 e sairão por aqui nos próximos dias postando desenhos de árvores, frases australianas traduzidas de cartões retirados do mercado e desejando a todos nós uma infinitude de coisas que não vão nos acontecer, eu, do centro da minha fé curtinha nas coisas e no semelhante, quero apenas desejar que as pessoas leiam um livro. É um desejo razoável. Eu acho.

*Malu Fontes é jornalista e professora do Curso de Jornalismo da Universidade Federal da Bahia

Obs: Texto originalmente publicado no Facebook da autora no dia 05 de dezembro de 2013 (Salvador, BA)

2 comentários:

  1. Parabéns à autora pelo texto. Três páginas de word que valeram muito mais do que as 200 do livro de Fernanda Torres. Fiquei imaginando o esforço da autora desse texto para falar tanto de uma obra que não diz nada. "Fim" é pobre, é fraco. Só com muita boa vontade é possível se lembrar de Nelson Rodrigues e Denys Arcand durante a leitura de "Fim". As obras daqueles artistas são densas, ricas, profundas, com personagens complexos; enquanto a de Fernanda Torres é rasa, comum, com personagens rasos. Consegui me lembrar apenas de Machado, mas por razões nada positivas. Pensei: "Nossa, ela foi por esse caminho: o morto narrando sua vida; poderia tê-lo evitado, pois a comparação com Machado seria automática, e ficaria evidente o tanto que a autora é limitada." Sou da seguinte opinião: Se alguém inovou e o fez brilhantemente, como Machado em Memórias Póstumas..., é prudente não trilhar o mesmo caminho, a não ser que seja bom o suficiente para isso; e Fernanda Torres esteve longe disso em seu livro de estreia. "Fim" é comum, é mais do mesmo; não acrescenta em nada.

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  2. Respeito a opinião da autora do texto, mas discordo totalmente. O livro é ruim de dar pena. Achei bem pretensioso, querendo ser o que não é. A temática é muito batida. Também não consegui achar nenhuma graça no humor. Às vezes as piadas pareciam infantis. Não gostei. Livro pobre.

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