quarta-feira, 20 de outubro de 2010

FARÓLEO, UM GRANDE ARTISTA


O Terreiro de Jesus, nos anos 70, era calmo e hospitaleiro. O visitante podia passear sem receio de ser assediado por capoeiristas, vendedores de bugigangas ou baianas de receptivo. Sentar na Cantina da Lua numa manhã de domingo e beber uma caipirinha antes que o Clarindo pegasse o microfone, era programa especial. À volta da bela fonte, algo como uma incipiente feira da ladra ou mercado das pulgas prometia um natural desenvolvimento, desde que a prefeitura não interviesse para “ordenar” o espaço. Mas, como podem adivinhar, foi exatamente o que aconteceu. Velharias, quadros e roupas usadas desapareceram por decreto municipal.

Entre outros achados - azulejos, artesanato e livros - descobri a obra de um artista que até hoje é um dos meus preferidos, embora ainda espere pelo devido reconhecimento. Podem chamá-lo de primitivo ou de ingênuo. Prefiro rotular seu trabalho simplesmente de Arte, com “A” maiúscula.


Josaphat Honorato de Santa Cecília, vulgo Faróleo, sergipano, começou por pintar latas de lixo na marinha militar onde serviu exército. O manuseio do pincel despertaria logo uma incontrolável necessidade de expressão pictórica. Mal terminou os deveres cívicos, entrou no atelier de Ivan Serpa, no Rio de Janeiro. Não tenho elementos para analisar nem avaliar a influência do mestre sobre o ex-marinheiro, mas a obra de Faróleo reflete uma sobriedade próxima do conceitual, embora a figuração tenha sido uma constante nas telas do sergipano. Estamos longe do irritante anedotismo “naïf” que satura suas telas com trenzinhos, florzinhas e baianinhas, transformando a inicial espontaneidade em fórmula repetitiva, apelativa e mercantilista. Tão pouco podemos colocar Faróleo no universo dos Inconscientes (vide Nilza da Silveira).


Sabe perfeitamente onde e como expressar sua proposta. Qualquer que seja o tamanho escolhido, ele controla a composição, sabe equilibrar as cores numa dinâmica sempre ordenada, quase matemática, seja no rigor da simetria, seja num elaborado ensaio de assimetria.




Os temas são preferencialmente interioranos. Os títulos dos quadros, quase de forma ritualística, começam pela saudação afetiva a sua terra natal: “Coisas do Campo de Brito”.  Santos, beatos, lavadeiras e lavradores, vivem um quotidiano perene à volta de singelas casas de porta e janela. A natureza pode ser festiva ou desesperada, mas está sempre presente, nem que seja por trás da janela entreaberta.   Lagoas, carneiros e bananeiras simbolizam a fertilidade, a vida. Os atores são retratados com o despojado anonimato de entalhadores de ex-votos.
Olhos imensos e confiantes, pele escura de caboclo, cabelos longos e pretos, vez ou outra trançados, nos lembram que o sertão tem mais índio que negro. Faróleo usa com parcimônia os espaços, tal o gravador japonês, ciente da importância do vazio como valor de equilíbrio.


Morreu em 1987 na cama estreita de um hospital público de Aracaju, vítima de úlcera. Fui o último amigo a visitá-lo, já no triste final, mas ainda me reconheceu. Não cabe aqui tecer comentários sobre um relacionamento difícil com a mulher muito mais nova e sem preparo para acompanhar um homem aparentemente pacato, mas de vida interior intensa.
Não vejo na produção artística brasileira nenhum pintor que possa ser colocado no mesmo universo pictórico. Talvez uma Djanira ou um Volpi, pela transparência das propostas, a limpeza da paleta, o minimalismo dos elementos.
Eis um pintor digno de reabilitação.
Dimitri Ganzelevitch
Salvador 18 de outubro de 2010

5 comentários:

  1. que maravilha, Dimitri!!!!Não o conhecia!!!
    obrigada!!
    Regina Serra

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  2. Olá,
    Ganhei de herança um quadro deste pintor que meus pais ganharam de presente de casamento.
    Laiana Santos Wawzyniak

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  3. Quanta saudade. na minha adolescencia presenciei muitas vezes o faroleo pintando.Campo do brito sente muita falta desse talentoso pintor etão pouco reconhecido. obrigada Dimitri pela oportunidade de rever sa belas produçoes de Faróleo

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  4. Domitri, te conheci através do Life By Lufe, goatei de mais da sua casa, especialmente o local com as obras do Faróleo que apesar de ser sergipana, não o conhecia.
    Foi muito gostosos ver tanta história e amor pela arte dentro de uma casa. Parabéns

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  5. Tenho uma pequena tela dele, comprada em S. Salvador da Bahia, há cerca de 27 anos. É um trabalho que me tem acompanhado por todas as casas por onde passei.

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