terça-feira, 27 de agosto de 2013

FAVELA DA MARÉ

Mal sai do filme Cuíca de Santo Amaro, entrei novamente na mesma sala do Glauber Rocha para assistir “A alma da gente” que conta a trajetória de um grupo de dança com adolescentes da favela da Maré, uma das mais violentas do Rio de Janeiro. Uma das diretoras do projeto, Marília Veigas, quando passou por Salvador, me convidou para a primeira apresentação do espetáculo no Teatro Vila Velha. 



Fiquei tão emocionado com a beleza e o profissionalismo do conjunto, que voltei na noite seguinte para rever aquilo que até hoje é um dos eventos artísticos mais fortes que vi em muitos anos. 
O documentário prova que adolescentes, sejam eles de famílias abastadas ou carentes gostam e aceitam uma disciplina severa quando a intenção é claramente construtiva.
Exaustivos ensaios e longas palestras contribuíram ao amadurecimento e auto-estima dos jovens. O “turco” Ivaldo Bertazzo não perdoa deslizes. Grita e castiga, mas também sabe elogiar e as condições de trabalho são do Primeiro Mundo.                                   
Dez anos depois, a câmera volta na favela e procura os antigos componentes do espetáculo. Se um voltou ao tráfico e outra se contentou em ter filhos, o filme evidencia que muitos souberam morder na isca de um projeto de vida. Saíram da Maré pára ser advogada, diretor de cinema, professora, fotógrafo, músico etc.
A alma destes jovens acompanha o espectador durante os 83 minutos e nunca deixa espaço para o tédio. As emoções são naturais, contidas e pudicas. 
Um momento especialmente comovente mostra a mãe do jovem traficante morto com fotografias dos tempos de glória, recortes de revistas, artigos de jornais. A senhora deixa correr lágrimas sobre um rosto negro e magro onde a vida difícil gravou sua lembrança em mil rugas.
Uma das antigas companheiras revela que, após a última apresentação, o garoto teve um desabafo, deixando escapar algo como “O sonho acabou...”. 
Este é o grande problema dos projetos sociais que acompanham um adolescente até certo ponto e um dia abrem os braços e dizem “Agora, você já pode andar sozinho”.                                                    
Muitos ainda não fortificaram sua estrutura mental para avançar na vida sem amparo.

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