domingo, 25 de outubro de 2015

IPHAN, O BASTIÃO DE COISA NENHUMA


 Ticiano Leony




Vivemos em Salvador, uma cidade que arquitetonicamente tem similares ao redor do mundo. Vários sítios de aqui, como dizem os portugueses, lembram a Lisboa de hoje. 
-O que então as diferencia? 
-O cuidado com o remanescente do esplendor de outras épocas, com a história.
Lisboa, apesar do Grande Terremoto, está bem preservada.


Em Salvador, vemos diariamente, seja no inverno chuvoso como este de 2015, quanto nos verões escaldantes, pedaços da cidade da Baía se dissolverem ante as intempéries, quando as águas de março, (ou agora de maio), se tornam inclementes porque abundantes. 


A imprensa noticia até goteiras nos telhados das centenárias igrejas a mancharem as pinturas e danificarem os preciosos afrescos e apodrecerem as madeiras dos tetos pintados em tempos idos, os cupins grassam, refestelam-se no cedro seco dos coros e nas volutas entalhadas nos retábulos. Enquanto isto, casarões particulares, ocupados outrora pelas famílias abastadas, perdem-se e desmoronam como a riqueza que um dia, neles, habitou.


Os exemplos são muitos. Da Ribeira ao Bonfim, de Nazaré à Piedade, do Taboão à Conceição, passando pelo miolo do Comércio, ao longo da Rua Nova das Princezas, assim mesmo com z, hoje Conselheiro Dantas, os velhos casarões vem ao chão. O processo é semelhante a um câncer. Primeiro o imóvel é fechado. Põe-no para vender, como não vende fica disposto a aluguel. Se não aluga é abandonado sumariamente. Creio que nem pagam o IPTU o que ensejaria alguma providência mais rigorosa da Prefeitura, antes de virar ruína. Uma vez fechado, semi-abandonado, uma ave dejeta uma sementinha numa platibanda. Com as chuvas, a semente nasce, brota, vira um pé de mato que tem raiz. A raiz procura um desvão rachado da parede de adobão, desenvolve-se na rachadura, aumentando-a. Com isso, permite a entrada de mais água, que vai aos poucos dissolvendo o barro que alimenta a planta. Mais algum tempo a rachadura alarga e rompe a parede. A madeira que sustenta o telhado e estava apoiada na parede, perde sustentação. Desequilibram-se as telhas, a água da chuva então tem acesso ao interior do prédio. Daí em diante, é apenas uma questão de tempo.


O IPHAN, para justificar sua precária e vexaminosa existência, manda escorar as paredes de adobão com perfis de ferro como se esse paliativo fosse resolver alguma coisa. São centenas de velhos casarões escorados, da Saúde até a Palma, do Comércio até a região do Pelourinho, por toda a cidade o que se vê são os precários escoramentos enferrujados nascendo dos escombros enquanto brota o mato e os moradores de rua fazem do esconderijo mictório e defecatório.
Houve a tentativa de salvar o Pelourinho. Válida, porém sem continuidade. Mudam os governos, mas o IPHAN continua no mesmo marasmo, na mesma negligência, ele que deveria ser o guardião do patrimônio. Com certeza vai justificar-se dizendo que a morosidade da justiça permite que a degradação tome conta dos prédios, sejam particulares ou históricos. Uma autoridade vai empurrando com a barriga para o colo da outra enquanto as casas caem como este recente desastre na Ladeira da Montanha que teve até vítima fatal. E a história da Bahia vai virando apenas a lembrança guardada nos postais de tempos idos, ainda em preto e branco.


Diz-se que é muito fácil resolver problema alheio. Neste caso, porém, o problema não é alheio, é de todos nós. Se o casarão com condições de preservação ficar fechado mais de seis meses, a Prefeitura, com suporte do IPHAN e através de órgão competente notificaria o proprietário e dentro de um prazo exíguo o expropriaria. Ela então, sumariamente, passaria a ser a gestora do imóvel. Antes que se degradasse. Ou o proprietário poderia fazer uma permuta compensatória com a Prefeitura ou até com o Governo do Estado. As soluções devem ser muitas. O fato é que estamos no limite para uma posição drástica ser tomada. Não dá mais para ver a cidade velha se degringolar acometida do descaso, principalmente por parte do órgão encarregado de preservá-la.


Há providências pontuais como a que a Construtora MRM exemplarmente tomou na Igreja da Vitória. A sugestão, pois, está aí. Cada construtora que for fazer um prédio novo, seja na Barra, Graça, Cabula, Vila Laura, Itapagipe, Pituba, Orla ou na Vitória, terá que restaurar tecnicamente uma igreja, um monumento ou um casarão. Que absorva os custos e os dilua na venda das unidades ou que tenha um benefício fiscal qualquer, abatendo os custos da restauração. Sei que modelos deve haver muitos para cobrir as despesas, o importante é que a ação seja implementada apesar do IPHAN.


Que a continuar como vai, acabará sendo o bastião de coisa nenhuma.

Um comentário:

  1. Christoph Fikenscher30 de outubro de 2015 09:17

    texto provando confusão e cegueira reinante em relação aos fundamentos da preservação dos monumentos históricos na integridade do contexto urbano: após exposição razoável do "marasmo" no que está afundado o IPHAN o autor, no último parágrafo, afirma ser exemplar a atuação da construtora MRM na igreja da Vitória. Infelizmente tem razão: é outro exemplo da aberrante política das ações compensatórias - "contrapartidas" que tentam lavar os pecados. Talvez os interessados tenham esquecido que pecado mortal não tem absolvição, o empreendimento com lavagem da MRM destruiu, para sempre, o lugar da igreja, a praça, a encosta, o horizonte - só falta poeta para colocar, na forma devida, os responsáveis da construtora, do IPHAN e da prefeitura no inferno.

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