Livro de Houellebecq inflama debate sobre o Islã
Sexto romance do escritor, capa da Charlie Hebdo, suscita tanto elogios quanto acusações de islamofobia ao retratar uma França governada por muçulmano
A capa do 'Charlie Hebdo' desta quarta-feira 7 trazia charge de Houllebecq dizendo que cumpriria o Ramadã
O recém-lançado romance de ficção política de Michel Houellebecq já desencadeia debates furiosos na França. Em suas 300 páginas, o autor nacional vivo mais vendido no estrangeiro esboça o retrato de seu país sob o governo do fictício líder de um partido islâmico.
Em 2022, ao fim de um segundo mandato de François Hollande, a alternativa política dos franceses se restringe à Frente Nacional (FN), de extrema direita, ou ao poder religioso. No segundo turno do pleito presidencial, Mohammed ben Abbes, candidato da "Fraternidade Muçulmana", derrota Marine Le Pen, da FN, graças a uma aliança tanto com os socialistas como com a centro-direita.
A França do romance se encontra profundamente conturbada – assim como o narrador, o professor universitário François, um niilista que se converteu à fé maometana. Por oportunismo, a fim de conservar seu posto na "Universidade Islâmica de Paris-Sorbonne"; mas também atraído pelas perspectivas eróticas da poligamia.
Conexão com atentado. Soumission (Submissão) chegou às livrarias francesas nesta quarta-feira 07, com uma tiragem inicial de 150 mil exemplares, significativa para o mercado nacional. A publicação das traduções alemã e italiana está programada para meados de janeiro, mas ainda não há data prevista para uma versão em língua inglesa nem em português.
O título se refere a uma das acepções da palavra "islã": submissão ou obediência a Alá. Pirateado antes mesmo do lançamento, o sexto romance de Houellebecq gerou uma avalanche de comentários sem precedentes, na imprensa e nas redes sociais, sendo classificado desde "sublime" a "irresponsável".
Embora ainda não haja qualquer indício de uma conexão direta entre o lançamento literário e o atentado à redação do semanário Charlie Hebdo, em Paris, que matou pelo menos 12 pessoas, a capa da edição atual da publicação é, justamente, Soumission. Uma caricatura mostra o autor. Ao lado está escrito: "As previsões do mago Houellebecq: Em 2015, eu perco os meus dentes... Em 2022, eu faço Ramadã!"
Nos últimos anos, a França vem enfrentando o desafio da integração de sua população muçulmana, a maior da Europa, estimada em 10% do total de habitantes. Hollande assegurou que será um dos leitores de Soumission "porque está em debate". Ao mesmo tempo, apelou aos franceses para que não se deixem "devorar pelo medo".
- Houellebecq se defendeu das acusações de islamofobia e disse que ninguém muda voto por causa de um livro
Em editorial, o jornal de esquerda Libération acusa o escritor de justamente brincar com os temores anti-islâmicos e de "adubar as ideias da Frente Nacional". Na mesma linha, o conservador Le Figaroenfatiza o fato de o protagonista da ficção se arranjar com uma "visão de futuro que faz pensar num pesadelo". "Houellebecq não sente simpatia por ninguém, antes indiferença. Essa apatia é o reflexo do esgotamento de nossa própria sociedade."
Por sua vez, o Observatório Nacional contra a Islamofobia, integrante do Conselho Francês do Culto Muçulmano (CFCM), deplorou incondicionalmente a abordagem do romance: "Suscitar pseudodebates nas mídias sobre a chegada hipotética ao poder, num futuro próximo, de um partido muçulmano [...] só pode favorecer a expansão dos sentimentos islamofóbicos no seio da sociedade francesa."
Para o também autor Emmanuel Carrère, em contrapartida, Soumission é "um livro sublime, de uma extraordinária consistência romanesca", e as "antecipações" de Houellebecq integrariam a "família dos romances proféticos do século 20: 1984, de George Orwell, e Admirável mundo novo, de Aldous Huxley".
O tão polêmico quanto fleumático autor de 58 anos define seu processo de criação como uma "aceleração da história". "Eu condenso uma evolução, na minha opinião, verossímil", o que não seria uma provocação, "na medida em que não digo coisas que considere fundamentalmente falsas só para irritar".
Após o lançamento, Houellebecq se defendeu das acusações de islamofobia: "Não acho que isso seja flagrante. A parte do romance que dá medo é sobretudo aquela antes da chegada dos muçulmanos ao poder."
Afirmando-se "neutro", ele rechaçou que tenha "dado um presente" a Marine Le Pen: "Não conheço ninguém que tenha mudado suas intenções de voto depois de ter lido um romance." Na segunda-feira, a presidente da populista FN declarara que Soumissioné "uma ficção que um dia poderá virar realidade".
Nenhum comentário:
Postar um comentário